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Cirurgião de Kadhafi: “Está enfraquecido e teve reacção sanguinária”

Liacyr Ribeiro é cirurgião plástico e operou o líder líbio há 16 anos. Diz que é inteligente e carismático

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por Cláudia Garcia, Publicado em 02 de Abril de 2011   

Liacyr Ribeiro é cirurgião plástico e operou o líder líbio há 16 anos. Diz que é inteligente e carismático
Liacyr Ribeiro tem 70 anos. É um dos cirurgiões plásticos mais conceituados do Brasil, descendente de portugueses, e já fez mais de cem cirurgias plásticas em Portugal, a “figuras da elite” das quais prefere não revelar a identidade. Vive no Rio de Janeiro, onde tem dois consultórios, e também faz cirurgias em Nápoles, Itália. Há 16 anos, aceitou operar Muammar Kadhafi, o líder líbio, no meio do deserto em Trípoli. O i falou com o médico sobre a cirurgia e sobre o líder de um país que atravessa agora uma guerra civil.

Porque é que só agora falou na cirurgia a Kadhafi?

Apenas pelo que está a acontecer na Líbia. Muita gente nem sabia de onde era o Kadhafi, nem sequer onde era a Líbia. Quando fiz a cirurgia, em 1995, só algumas pessoas mais próximas a mim é que souberam. Resolvi revelar que a tinha feito já depois de ouvir a opinião da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Mas prefiro focar-me na minha experiência na Líbia, até porque não tenho motivos para falar mal de Kadhafi. Naquela altura ele foi muito gentil comigo.

Como é que o coronel Kadhafi o procurou?

Eu participei no I Congresso Pan-Arábico de cirurgia plástica, que foi na Líbia, em 1994. Era o único brasileiro. Havia vários médicos estrangeiros, só não havia médicos americanos. E no final, o organizador do congresso, Mohamed Zaid, que por acaso era o ministro da Saúde líbio – mas eu nem sabia -, pediu-me para examinar uma pessoa conhecida.

Chegou a pensar que seria o coronel?

Não. Na minha intervenção no congresso eu falei de mamas. Pensei que fosse a mulher do ministro ou, no máximo, a mulher de Kadhafi. Quando vi que era o próprio Kadhafi, bem… Foi uma aventura.

E como é que foi essa viagem até ao deserto?

Percorremos Trípoli inteira e só na entrada do bunker é que percebi que aquilo não era uma casa comum. Depois entrei, fui entrevistado pelo médico particular de Kadhafi, que era um paquistanês, e só a seguir é que me encontrei com ele.

Ficaram só os dois?

Sim, nesse momento estava só eu e ele. Saíram todos. Os aposentos do Kadhafi ficavam num sítio com pouca luz e não foi possível examiná-lo ali. Fomos para um consultório dentário que ele tinha lá, que era muito moderno, tinha visto poucos assim.

O que é que Kadhafi lhe pediu?

Queria uma intervenção cirúrgica de rejuvenescimento facial, mas não queria que se notasse nada. Começou logo por dizer o que é que se podia fazer, o que é que não se podia. Sabia mais de cirurgia plástica do que eu. Era uma pessoa muito bem orientada e esclarecida. Examinei-o e depois chegámos um acordo sobre a data. Ele queria que se fizesse logo naquele dia. Mas era impossível, porque era necessário fazer vários exames e queria ainda tirar e analisar algumas fotografias. Marcámos para o ano seguinte e então levei a minha equipa.

Ele disse porque queria fazer a cirurgia?

Na altura ele devia ter pouco mais de 50 anos, tinha um rosto envelhecido. Mas obviamente que um árabe, vaidoso, machista, não ia admitir que queria ficar mais bonito. Alegou que como estava no poder há vários anos, temia que os jovens o vissem como um velho. Queria que os jovens líbios o vissem como um líder ainda mais jovem do que eles. E exigiu que não fizesse um facelift clássico, porque poderia ficar demasiado aparente. Queria outro tipo de cirurgia de rejuvenescimento.

Qual?

Isso não posso revelar. Optámos por alguns procedimentos de rejuvenescimento que não seriam tão perceptíveis mais tarde, respeitando a vontade dele.

Nunca pensou pedir a Kadhafi para ir ao Brasil fazer a cirurgia?

Não. E ele nunca iria. Seria um risco muito grande. Para ter uma ideia, dentro do bunker dele não existia um único líbio, eram todos estrangeiros. Ele tinha medo de ser assassinado ou que algum dos seus funcionários fosse raptado e pudesse passar informações sobre ele.

E quando voltou à Líbia, como é que foi recebido?

Fui muito bem recebido. Mandaram os bilhetes de avião, tudo em primeira classe. Levei aquele que na época era o meu assistente, Fábio Nacach, que também fez um implante capilar a Kadhafi. Ficámos numa suite no principal hotel de Trípoli. Na Líbia, as pessoas com mais condições vivem e trabalham de noite, porque conseguem suportar melhor o calor. A cirurgia foi de madrugada, mesmo no bunker do Kadhafi, que tinha tudo. Tinha um centro cirúrgico com duas salas totalmente equipadas, como poucas vezes vi. O anestesista era russo, a assistente era sérvia, que era muito eficiente e por isso é que só levei um assistente.

Como correu a cirurgia?

Se não tivesse corrido bem, talvez tivesse morrido lá. Ele preferiu que fosse só com anestesia local e um analgésico leve. Durou pouco mais de quatro horas.

E durante a cirurgia ele esteve acordado?

Acabou até por acontecer um episódio muito engraçado. Ele estava semiacordado, ficou com fome a meio da cirurgia e mandou parar tudo para poder comer [risos].

Isso é possível?

Sim, como ele estava em jejum e com um analgésico muito leve, acabou por acordar. Disse que tinha fome e que queria comer. Nós parámos tudo, tirámos os cabos esterilizados e ele mandou vir hambúrgueres para toda a gente que estava na sala. Comemos e recomeçámos tudo novamente. Com a fome que tinha, foi óptimo.

Ainda se lembra do que ele disse quando viu o resultado?

Primeiro esteve em recuperação, mas um dia depois passei pelo bunker e estava tudo bem. Acompanhei o pós-operatório e no final ele foi muito educado, disse que já estava bem e que estar ali, para mim, devia ser um sacrifício e que poderia regressar ao meu país. Viemos embora e acredito que ele tenha ficado muito satisfeito com o resultado final. Mas se por acaso não ficou, não comentou nada. Se realmente não tivesse gostado, acho que não estaria vivo.

O que é que mais o surpreendeu em Muammar Kadhafi?

É uma pessoa muito inteligente. Fala um inglês perfeito e sabia muito de medicina. Lia muitos livros de medicina, não sei se era hipocondríaco, porque o médico particular dele, o paquistanês, estava 24 horas por dia disponível só para ele e nunca podia sair do bunker. Eles tinham medo que o médico fosse capturado.

Como é que era esse bunker?

Muito moderno. Dentro dos aposentos dele havia um ginásio e uma piscina olímpica. Muammar Kadhafi era muito atlético e fazia exercício todos os dias. Não era gordo, nem barrigudo. Tive de extrair gordura da barriga dele, para um procedimento cirúrgico, e tive dificuldade para encontrá-la.

Como foi combinado o preço da cirurgia?

Quando se trata de um chefe de Estado, ou de uma pessoa especial, nunca cobramos.

E agora, com a situação na Líbia, a sua opinião sobre Kadhafi mudou?

Não tenho motivos para falar mal dele. As pessoas dizem que ele não passa de um ditador sanguinário, mas também não conheço nenhum ditador que não seja sanguinário. O poder exige que ele seja assim. É pela força que se mantém no poder. Não foi à toa que Salazar ficou tantos anos no poder em Portugal. Entre outras coisas, foi também pela força.

Mas apoia a postura de Kadhafi para se manter no poder na Líbia?

Não é isso. Ele está enfraquecido e teve uma reacção sanguinária. O que digo é que ele tem força, carisma e é muito inteligente. Ninguém é líder durante 42 anos sem razão. Kadhafi vai resistir até onde puder. Se a revolução ficasse só entre os líbios acredito que ele conseguisse unificar o país e recuperar o poder. Como há potências estrangeiras envolvidas, ele vai acabar por cair. Ou Kadhafi morre na Líbia ou então vira tudo outra vez.

Quando esteve em Trípoli percebeu se já havia pessoas que não o apoiassem como líder?

Vi que o povo o adorava. Kadhafi levou luz e água ao deserto, as estradas estavam bem alcatroadas, criou uma universidade e mandou muitos cirurgiões de várias especialidades para fora do país. Ele fez muita coisa pela Líbia.

Depois dessa experiência, manteve algum contacto com Kadhafi?

Convidaram-me para ir à Líbia há uns cinco anos. Não sei se para fazer outra cirurgia, mas não aceitei. Pelo que tenho visto, a aparência de Kadhafi está muito má. Não sei se outros cirurgiões fizeram alguma coisa, mas qualquer cirurgia tem um prazo de validade. A cirurgia facial tem uma duração de cinco anos. Se ele está com aquela cara, ao fim de 15 anos, já passou o prazo de validade.

Porque é que não aceitou o convite?

Por problemas familiares. Acho que não gostaram que eu tenha recusado esse convite. Sei que perdi o contacto, inclusive aqui, com a embaixada.

Continua a fazer cirurgias fora do Brasil?

Sim, vou todos os anos para Itália. Mas já operei durante cinco anos em Portugal, em meados da década de 80.

A cirurgia plástica era uma novidade, não?

Sim, fui eu que fiz a primeira reconstrução de mama pós-cancro em Portugal. Na época até dei uma conferência no Instituto Gentil Martins. Também tenho a nacionalidade portuguesa, porque sou descendente de portugueses, e estou inscrito na Ordem dos Médicos. Sempre que vou a Itália passo por Portugal, para rever alguns amigos, comer um bacalhau, um arroz de pato e beber vinho verde.

E porque é que deixou de operar em Portugal?

Comecei aí, com o professor Ibérico Nogueira de Coimbra. Ia a Portugal umas quatro ou cinco vezes por ano, mas nunca vivi em Portugal. Isto foi logo depois do 25 de Abril, quando houve uma abertura muito grande na mentalidade portuguesa para as plásticas. Mas se tivesse continuado, teria de passar a viver aí. O meu aluno, que era quem tratava dos meus pacientes, Francisco Ibérico Nogueira, começou a andar pelas próprias pernas e depois também houve uma proposta economicamente melhor para estar em Nápoles e em Roma.

Tem ideia de quantos portugueses já lhe pediram uma cirurgia?

Foram muitos mesmo, acredito que tenham sido mais de cem. Mas isto já foi nos anos 80 e foi durante um período de cinco anos.

Operou alguma figura pública portuguesa?

Sim, várias. Mas não posso dizer quem. Aqui no Brasil todas as pessoas fazem cirurgias e contam que as fazem, mas em Portugal as pessoas importantes entram pelas traseiras com medo que alguém as veja.

Além de Kadhafi, já operou mais chefes de Estado?

Já operei quatro chefes de Estado e houve outros casos que também foram fora do Brasil.

Também se diz que operou o primeiro- -ministro italiano, Silvio Berlusconi…

Não confirmo, nem desminto. Ele ainda é uma figura muito importante, o homem é o primeiro-ministro italiano. Em Itália opero muitas figuras públicas que nem sei quem são. Podem ser até mafiosos, mas não sei, porque chego e opero. Mas o Silvio Berlusconi fez plásticas na cara, isso não é segredo nenhum.

Mas conhecem-se?

Já estive várias vezes com ele. O pai de um dos meus ex-alunos era sócio dele. Conhecemo-nos por isso.

Esse conhecimento teve alguma influência na cirurgia a Kadhafi?

Não. Os líbios não gostam dos italianos, há mais interesse do que outra coisa. Como todos os outros, Berlusconi também está interessado no petróleo da Líbia.

Kadhafi falou sobre isso?

Não, mas percebi quando lá estive. Ao contrário dos tunisianos, que têm uma consideração muito grande pelos franceses, na Líbia há uma aversão a Itália.

E o dr. Ribeiro, já fez alguma plástica?

Só fiz um implante de cabelo. Numa cirurgia plástica a pessoa tem de mudar aquilo que realmente a incomoda. A plástica tem de ter um autodiagnóstico.

Fonte : ionline

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