Querem a verdade? Ei-la.

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CEM POR CENTO
22/Abril/2011

Nicolau Santos
nsantos@expresso.impresa.pt
“TEMOS PELA FRENTE UM AJUSTAMENTO A DEZ ANOS EM QUE A CLASSE MÉDIA EMPOBRECERÁ.
HAVERÁ UM SENTIMENTO GENERALIZADO DE DERROTA E DESISTÊNCIA”.

Querem a verdade? Ei-la.

Neste período pré-eleitoral, não há político ou comentador que não diga que é preciso dizer a verdade aos portugueses sobre o futuro que os espera. 
E quando alguém sugere que a última coisa que se pode tirar a uma pessoa desesperada é a esperança, é imediatamente cilindrado pelos actuais paladinos da verdade nua e crua acima de tudo.
Se toda a gente dissesse, em cada momento, toda a verdade sobre tudo.
O mundo seria um lugar perfeitamente insuportável. 
Mas se querem toda a verdade, vamos a ela. 
E a verdade é que temos pela frente um ajustamento que vai durar dez anos, durante os quais a classe média empobrecerá paulatinamente sob o aumento do peso dos preços e dos impostos, do crescimento do desemprego e da precariedade, nas relações laborais, da falta de oportunidades e de horizontes. 

Trocar de carro de quatro em quatro anos? Esqueça. 
Viagens a sítios exóticos nas férias? Esqueça. 
Jantar fora uma ou duas vezes por semana? Esqueça. 
Gastar em medicamentos não essenciais? Esqueça. 
Comprar livros, CD e DVD com regularidade? Esqueça.  
Ir ao cinema com frequência? Esqueça. 
Assinar a Sport TV, canais de filmes e outros pacotes televisivos? Esqueça. 
Pagar as quotas para o seu clube do coração? Esqueça.
Comprar com regularidade uns camarões, uns patés, uns bons vinhos lá para casa? Esqueça. 

Alugar uma casinha no campo ou na praia? Esqueça. 

Aumento de ordenado e das poupanças no banco? Esqueça. 
Um bom emprego para os filhos que tiraram um curso superior? Esqueça.
Se querem ganhar a vida de forma compatível com os estudos que fizeram, é melhor emigrarem.

O mais dramático é que chegámos aqui não por um acaso, mas por uma tendência perfeitamente clara e definida. 

Entre 1960 e 197O, o crescimento médio do PIB (ou seja, da riqueza criada pelo país) foi de 7.5%.
Entre 1970-80 esse valor caiu para 4,5 %. Na década 80-90, a descida continuou: 3,2%. Entre 1990 e 2000, novo abrandamento: 2,7 %.
E entre 2000 e 2009,o crescimento médio reduziu se a uns pindéricos 0,7 %. 

Pior um pouco se olharmos para o futuro. 

Em 2012, segundo o FMI, seremos o único país do mundo em recessão (-0,5 %).

E entre 2011 e 2016 seremos o país com o crescimento mais lento do mundo, com apenas 0,4% em média. 

Ah, querem mais verdade?

 

Estas projecções foram feitas ainda sem ter em conta o novo pacote de austeridade que vamos ter de suportar para que a troika EU/BCE/FMI nos emprestem 100 mil milhões até 2013.
Ou seja, os números (ver págs. 10 e 11 deste caderno) serão ainda piores.
E com estas taxas de crescimento, será muitíssimo mais difícil senão quase impossível – resolver os desequilíbrios macroeconómicos. 

A taxa de desemprego?
Vai provavelmente ultrapassar os 15%.
As nossas reformas? 
Depois da imposição de um teto máximo, vão ser meramente simbólicas em dez anos. 

As despesas públicas com saúde? 
Vão cair fortemente.

Vamos pagar cada vez mais pelos medicamentos. 

Com isto, os indicadores sociais (natalidade, mortalidade, esperança de vida) vão degradar-se e regredir. 

As cidades vão estar menos bem cuidadas. 

A insegurança e violência vão crescer. 

Haverá um sentimento generalizado de derrota e desistência.
Esta é a nudez forte da verdade. 

Não é bonita.
E ninguém ganha eleições a expô-la nua e crua na praça pública.
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