"Estamos a matar as estradas municipais, onde hoje se morre mais"

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Manuel João Ramos, presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados e professor universitário, é o rosto da luta contra a sinistralidade rodoviária no País e alerta que, devido à crise, os portugueses estão a circular cada vez menos pelas auto-estradas, preferindo itinerários complementares

Portugal foi o único País da União Europeia onde aumentou a mortalidade rodoviária no último ano. Porquê?
Sempre que ocorre um processo de motorização mais ou menos rápido é acompanhado por uma descida da mortalidade, porque as pessoas ficam mais familiarizadas com o risco e há sempre tendência para a redução do desastre grave. É a lei de Smeed. E nós, até agora, beneficiámos desta lei. Os números da mortalidade rodoviária têm vindo a baixar desde 2000 em Portugal. Beneficiámos também com o facto do Norte da Europa ter feito exigências no sentido de diminuir o risco rodoviário, que passaram pela melhoria da concepção dos automóveis e pela introdução de um conjunto de instrumentos de segurança activa e passiva, que são fundamentais para a redução da mortalidade.

O parque automóvel também se modernizou.
Tivemos uma grande modernização do parque automóvel. Assim, apesar de os desastres graves não terem diminuído, estes mecanismos salvaram mais vidas. Há uma medida, onde gostamos de pensar que tivemos algum contributo, que foi olhar para os pontos negros e resolver problemas nas infra-estruturas. Nenhum destes factores teve a ver com “avanço civilizacional” dos portugueses que o Ministério da Administração Interna tem referido. Por isso, chegados ao fim deste ciclo, da dita lei de Smeed, este aumento não é de admirar. Até porque a Brigada de Trânsito foi extinta, a PSP tem problemas tremendos em termos de recursos humanos, financeiros e materiais. O sistema de fiscalização não dá re sposta e as multas prescrevem às centenas de milhar a cada ano.

A Justiça é realmente justa quando em causa estão crimes cometidos nas estradas?
Todos estes aspectos contribuem para um sentimento de impunidade que continua muito elevado. Temos processos em tribunais cíveis que chegam aos dez anos. Tanto em termos legislativos como em termos de jurisprudência e de prática de tribunal, temos autênticos desastres. Não temos tipificação de crime rodoviário, que é tratado como qualquer outro crime. Nestes casos não há culpa e o causador de um acidente rodoviário também é uma vítima do desastre. Como ninguém pensa seriamente sobre o assunto, quando a sanção é aplicada, geralmente é simbólica. Portanto, o crime rodoviário em Portugal de alguma forma compensa, porque é mantido impune. A educação para a cidadania rodoviária em Portugal também é uma anedota. O INEM funciona hoje melhor no local, mas o sistema de urgências nos hosp itais não funciona tão bem como o de emergência médica, pelo que as pessoas acabam por falecer mais a 30 dias do que no local do acidente. Por tudo isto, acredito que não foi certamente pela acção governamental que conseguimos reduzir a mortalidade nos últimos anos, mas por factores exógenos. O Governo sabe os números das mortes a 30 dias e foi com números falsos que recebeu um prémio europeu pela redução da mortalidade nas estradas. A estratégia oficial de combate à sinistralidade rodoviária em Portugal tem sido dormir à sombra da bananeira e esconder o problema debaixo do tapete. A sinistralidade rodoviária custa 5% do PIB e por isso gostaríamos de saber o que é que este Governo vai fazer nos próximos anos. Era bom que tivesse uma estratégia e que não morresse com um novo Governo. Reduzir a mortalidade rodoviária a uma questão cultural é uma falácia. É propaganda.

Não é um contra-senso Portugal ter tantas infra-estruturas recentes e 70% da sinalização rodoviária estar incorrecta?
Julgo que 70% é um número conservador. E são vários os contra-sensos. Apostámos tanto na circulação rodoviária que descurámos transportes públicos, estamos a matar o transporte ferroviário – que é muito mais sustentável – e estamos a matar as estradas municipais, onde hoje se morre mais. Aliás, com a falta de dinheiro, há cada vez mais gente a evitar circular em auto-estradas. A tendência é no sentido dos itinerários complementares serem sobrecarregados. E é nestas vias que se encontram alguns problemas, como o de traçado, que contribuem para uma sinistralidade bastante alta. O facto de os transportes de mercadorias procurarem vias sem portagem vai implicar mais sinistralidade grave com mortalidade.

“Portugal tem um grave problema de iliteracia funcional”

Domina várias línguas e tem conhecimento aprofundado sobre temáticas muito distintas. A escola de hoje continua a fo rmar alunos desta estirpe?
Não tenho conhecimento prático dos ensinos básico e secundário, mas parece-me que, apesar da carga burocrática e das agressões do Ministério da Educação às escolas, há vontade de trabalhar e é possível fazer coisas muito interessantes. Há alunos muito interessados. O problema é que hoje, nas minhas aulas, no ensino superior, recebo estudantes que não deviam lá estar. A universidade, tal como a conhecíamos, morreu. O que temos é um sistema empresarial, que se apropriou do nome universidade para vender certificados que iludem as pessoas. E as pessoas sentem uma necessidade ilusória de ter um certificado para fazer qualquer coisa na vida. Quando acabam o terceiro ciclo (doutoramento) estão definitivamente desempregadas e perderam competitividade em relação a quem tem vinte anos. Há pessoas que estariam mais felizes e realizadas se não estivessem a frequentar o ensino superior, e que podiam estar a fazer trabalhos mais práticos. Se queremos ter ensino superior de qualidade não podemos ter massificação. O ensino superior pago não traz excelência, apenas um tipo de mediocridade diferente da mediocridade do ensino superior gratuito. Mas como gerir um ensino superior que seja simultaneamente de qualidade e de massas? Não existe. É um paradoxo. Se é de massas, admitamos que não temos de fazer as pessoas pagar por isso.

Há quem defenda que os acordos de Bolonha não favoreceram a qualidade.
Os acordos de Bolonha vieram trazer ao ensino superior grandes incongruências. Um aluno de doutoramento não sabe mais do que um aluno de licenciatura ou de mestrado. É o efeito da interdisciplinaridade. Como os alunos podem mudar de área entre licenciatura, mestrado e doutoramento, estão sempre a começar do zero. O ensino superior deixou de ser uma espécie de acumulação e de aprofundamento de conhecimento para ser uma espécie de estante de supermercado onde as pessoas podem i r buscar uma ou outra temática. Transformou-se o que devia ser precisamente o motor da universidade, que é o aprofundamento do conhecimento. Tornou-se uma folclorização de comportamentos e uma mercantilização total dos gostos dos consumidores.

Também há pais que se demitem do papel de educadores. Quais são as consequências?
Portugal tem um grave problema de iliteracia funcional, de adaptação da sociedade a formas de funcionamento que exigem raciocínio rápido e articulado. E é por isso que as coisas nos são impostas e nós aceitamos. Não há capacidade de discussão, de argumentação. Temos pessoas completamente empenhadas no seu dinheiro, espaço e tempo, que trabalham, e não são capazes de dar resposta a exigências fundamentais na construção de uma vida familiar. No Norte da Europa trabalhar de mais não é socialmente bem visto, porque isso significa descurar a família. Em Portugal, temos cada vez mais famílias disfuncionais, que não são capazes de acompanhar a vida dos filhos. Temos a disfuncionalidade de uma geração que não se consegue inserir, nem compreender.

Como chegámos até aqui?
Destruímos a nossa economia agrária pelas mãos do então primeiro-ministro Cavaco Silva. E agora é o Presidente Cavaco Silva que nos diz para retornar à economia agrária? Não é possível. Matámos numa geração a possibilidade de ter a mínima sustentabilidade do País, tornámo-nos num País de con-
sumidores de produtos alemães, que nada produz. Com isso, perdemos referências culturais e o mínimo de identidade cultural. Encontramo-nos numa sociedade dita multicultural e ninguém sabe o que fazer dela. Não temos hoje nenhuma outra identidade cultural que não seja a de consumidores e de escravos de um sistema para o qual não contribuímos muito. E basta ver os índices de votação dos portugueses nas eleições europeias. Nós nem percebemos que é a nível europeu que a maior parte das decisões são hoje tomadas.

A Etiópia tem melhores hipóteses de sobrevivência porque não perdeu cultura

No actual momento de crise, que consequências pode ter o desinvestimento do Governo na cultura?
Muito pouco. A cultura tornou–se uma ementa importante na propaganda dos governos. Mas não há no funcionamento escolar e educativo qualquer empenho em dirigir para manifestações culturais e para sensibilização cultural dos jovens. Não há educação para a música, nem para a pintura, e tudo depende do voluntarismo dos professores, num sistema que não premeia estas coisas e as vê como acessórias. Havia muito a fazer, e nunca ninguém fez, no sentido de definir o que é a cultura, porque a única coisa que se tem feito é ver o que se promove lá fora e apoiar esta ou aquele área, só porque parece que esta ou aquela é que está a dar. O meu pai teve um contributo muito relevante na modernização do teatro a partir d os anos 50 e é como se não tivesse existido. Por que é que as vozes incómodas são silenciadas neste País? Precisamente porque não existe a noção de que a cultura se faz de diálogo. Somos um País que vive sob o peso do processo inquisitorial. Uma posição de divergência, de diálogo, de oposição é vista como um anátema. O meu pai sempre achou que o teatro não devia ser subsidiado. Achava que o teatro só devia existir porque o público o queria, caso contrário não devia existir. Os seus pares, que vivem subsidiados, não gostam desta opinião e portanto não o reconhecem como pessoa memorável. O meu pai reflecte a ausência de uma base de valorização cultural da sociedade.

O que podem aprender os portugueses com os etíopes?
Carlos Lopes simboliza o que aconteceu aos portugueses. Éramos um povo de montanheiros, de pessoas magrinhas, pequeninas e que tinham grande resistência física. Hoje estamos sedentarizados ou em frente ao volante, ou em frente ao ecrã. Somos obesos, porque perdemos a capacidade de ter mobilidade própria. O exemplo dos etíopes e dos seus maratonistas devia fazer-nos pensar nas vantagens de não ter tantos carros nem ecrãs. Apesar de saber as dificuldades pelas quais a Etiópia passa, a verdade é que nos próximos anos a Etiópia está mais preparada para o impacto da crise. Nós esquecemo-nos que o petróleo é um bem escasso, ao qual estamos muito agarrados, e nem sei o que faremos ao imenso parque automóvel quando o petróleo passar rapidamente para os três dólares. A Etiópia, que continua a ser um país agrário (cerca de 85%), tem melhores hipóteses de sobrevivência a longo prazo porque não perdeu cultura, nem perdeu capacidade de andar a pé nem de viver com poucos recursos. Nós, que nunca tivemos grandes recursos naturais, nem mentais, e que andamos historicamente a depredar outros países, não podemos pensar que vamos depredar financiamentos europeus.

A crise reaproximou os portugueses dos povos africanos no mundo dos negócios. Que conselhos daria aos empresários interessados em África?
Aquilo que a dita integração europeia nos levou a pensar é que éramos europeus, quando os europeus acham que não somos europeus. A realidade de Napoleão continua mais ou menos clara e a Europa termina nos Pirinéus. Não temos estruturas económicas nem políticas que se possam equivaler. Andamos a comprar e a copiar modelos que não funcionam num País com poucos recursos económicos, infra-estruturais, culturais. Dá-nos a impressão que não somos africanos, mas se calhar somos muito mais africanos do que admitimos. São grandes as nossas semelhanças com o Magreb. Os empresários portugueses têm toda a vantagem em olhar para Espanha, Marrocos, Tunísia. E especialmente para Cabo Verde, que é uma luz muito importante em toda a África Ocidental em termos de ensino, qualidade intelectual. Cabo Verde pode ser uma porta para Portugal perceber que tem um lugar neste mundo, entre Magreb, África Ocidental e Mediterrâneo, e para deixar de alimentar sonhos europeus. n

Um homem de compromisso
Manuel João Ramos, filho do actor e encenador Jacinto Ramos, nasceu em Lisboa, em 1960. É casado e tem três filhos. É licenciado em Antropologia, mestre em Estudos Literários Comparados e doutorado em Antropologia. Dá aulas no ISCTE, e interessa-se por áreas de investigação tão variadas como: Estudos Etíopes, Estudos do Risco, Mitologia Cristã, Literatura de Viagem, Antropologia da Arte, Antropologia Visual, Conhecimento Antropológico, Antropologia do Simbólico e Cognição. Domina ainda várias línguas, como: Espanhol, Francês, Inglês, Alemão, Italiano, Catalão e Amárico (falado na Etiópia). Fundou o Núcleo de Estudos de Antropologia do ISCTE, também o Centro de Estudos de Antropologia Social, é membro de algumas associações internacionais, e publicou cerca de vinte l ivros sobre viagens, mitologia cristã, memória e identidade, pescadores, entre outros temas. É, contudo, mais conhecido pelo público enquanto presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, que fundou em 1999, depois de ter perdido uma filha num acidente no IP5. A perda levou-o à criação da petição Contra a Guerra Civil nas Estadas Portuguesas e, com 10 mil assinaturas recolhidas, achou que tinha uma “responsabilidade” e um “compromisso” para com os portugueses. Desde então tem abraçado a causa e é o rosto da ACA-M.

Fonte: Jornal de Leiria

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